quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Súplicas Malditas

       Caminhava de volta para casa. Já eram cinco e meia da tarde. A luz do sol ia desaparecendo à medida que caminhava. Seus passos mal ecoavam em meio à rua cheia de pessoas. Fora um dia de chuva, andava rapidamente, queria chegar à sua casa antes que caísse um toró. Não se importava tanto com a escova que havia feito no dia anterior, mas sim com os documentos que guardava consigo.
       Aos poucos a multidão ia se esvaindo, deixando seu caminho cada vez mais vazio. As ruas cheias de pessoas, casas, centros e etc. davam lugar a outras cheias de edifícios abandonados ou vazios devido ao horário. Estava acostumada ao trecho deserto, afinal, quem iria querer passar por ali àquela hora da tarde? Fora roubada algumas vezes, mas aprendera a não ter medo. O medo nunca ajudava naquelas situações.
       Era uma tarde usual. Nada de novo, mesmas reclamações, mesmas broncas do chefe. Tudo a favor de sua infelicidade.
       Uma criança surgira de um beco entre as edificações. Ela parou por um instante. 
       Talvez fosse mais uma ladra, não seria de se estranhar daquele lugar. Estava suja, suas roupas eram rasgadas e perdera a doçura usual que o rosto de uma criança naquela idade costumava carregar.
      Ela correra até Alexandra e abraçou-a. Um estranho bom sentimento passou pela mulher naquele momento.
       Me ajuda, moça. Eu preciso que me ajude, por favor! O menino se afastou e olhou-a com os olhos molhados. Venha comigo. Eu te peço.
       Alexandra estava estática. Aquela era uma situação totalmente anormal. O que um menininho estaria fazendo ali? O que fora aquele bom sentimento? Ela queria ajudar. Mesmo que fosse perigoso. Mesmo estando desconfiada.
       O que aconteceu garotinho?
       Me ajuda, moça! Eu só quero ajuda, por favor!
       A súplica do menino, os olhos chorosos, a voz doce contrastantes com sua aparência amoleceram seu coração desconfiado. A criança segurou seu pulso delicadamente e a puxou. Alexandra se deixou levar em meio à confusão em sua cabeça.
       O menino a levara para dentro de um dos galpões. O coração da mulher disparara pelo medo. Não sabia se havia alguém por trás daquela criança, não sabia se o desespero que via nela era verdadeiro, mas continuava a seguir seus pequenos passos.

       O galpão estava um pouco escuro, algumas parcelas de luz apareciam pelas frestas do telhado mal conservado. Já havia anoitecido, mas Alexandra mal havia notado. Voltara a chover, seus cabelos voltavam a ondular e sua bolsa molhava, mas ela não se importava. Queria ajudar.
       O menino parou. Largou seu braço. A marca roxa que sua mão deixara passou despercebida pela mulher hipnotizada pelas súplicas desesperadas.
       Porém, o que viu à sua frente a tirou de seu transe. Mas, não podia fugir. Era tarde demais.
       Aqui está, meus irmãos. Jantar fresco. Deliciem-se.




Texto por: Stephanie Santana (@stephaniedms)
Ilustração: Lucas Bulhões (Java) (http://covenant9.blogspot.com/)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Verdadeiro

        A garota olhou à sua volta. Estava sozinha. Chorou. Desabou em lágrimas enterrando seu rosto entre os joelhos em meio à coberta envolta às suas pernas.
       De repente, escutou um barulho. Assustou-se. Olhou à sua volta em busca do que fizera aquele som.
       Caminhou em direção à porta da varanda de seu quarto. O medo a assolou. Apertou a coberta em volta de si enquanto caminhava.
       Caminhou lentamente. As lágrimas ainda rolavam em suas bochechas.
       Chegou à porta. Abriu-a. O vulto negro à sua frente a fez cair de joelhos. Desabou em lágrimas de novo.
       - Você não deveria estar aqui. O que foi? Deseja ver a minha tristeza de perto?! Não foi o bastante presenciar tudo que me aconteceu? Minha vida está em ruínas. Não preciso de mais um a me jogar pedras...
       Ele abaixou-se e tocou o tristonho rosto.
       - Não vim para te julgar. Nem mesmo quero fazê-lo. Olhe em meus olhos. - Com os dedos, levantou a face da garota. - Eu estou aqui por você. 

sábado, 2 de julho de 2011

O Debutar Esplêndido

Dançou sozinha a sua valsa. Rodopiou e cantarolou.
Parou. Olhou à sua volta.
Seus olhos brilhavam junto à um esplêndido sorriso. Ela tivera sua melhor noite.
Eles saudavam a debutante. Entregaram os melhores presentes à delicada moça, seus maiores bens.
Ela olhou bem a faca em suas mãos. Restava apenas um para seu baile sangrio estar completo.
Observou aos convidados caídos ao chão e seu vestido manchado.

"Ninguém se salva" - Sussurrou.

Em sua garganta sentiu as últimas gotas de sua vida esvairem-se em sangue.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Desespero

Ela corria.
Corria o mais rápido que podia. Seu suor escorria através de seu corpo.
Estava cansada. Bastante cansada.
Ainda assim, seu olhar continuava fixo.
Tentou correr mais rápido.
Mais rápido e mais rápido.
Saltou sobre sua presa.

Saltou sobre sua presa, que sorriu.
Mal sabia ela que sua presa a transformara em caça.

Texto por: Stephanie Santana 
Dedicado à: Java o/ (Lucas Bulhões)

domingo, 29 de maio de 2011

Planos nefastos


       Ela olhou para o punhal. O metal reluzia junto ao brilho de seus olhos. Olhou bem para o objeto que possuía em mãos. Sorriu com o que planejava fazer. Guardou-o. Jamais saberiam de seus planos nefastos.
       Ele era dela, apenas dela. Ninguém mais o possuiria. Jamais.

A Ponte



        Não sei ao certo como cheguei aqui. Já havia caminhado milhares de quilômetros. Meus pés doíam demais. Sentei, quase sem esperanças. Fiquei ali por algumas horas.
       Choveu. Levantei a cabeça olhando para o céu. Bebi um pouco da água da chuva. Animei-me um pouco e levantei. Havia dois caminhos a seguir. Optei pelo da direita. Andei por mais duas horas. Cheguei em uma vasta ponte. Ponte esta em qual não se podia ver o fim. Caminhei durante cinco minutos.
       Deparei-me com um buraco. Um enorme buraco estava à minha frente. Fiquei sem ação com o abismo que via logo abaixo.
       Escutei um barulho. Algo atrás de mim. Virei-me.
       - Desculpa... Acho que quebrei aquela parte da ponte... - Sua expressão era gentilmente compungida - Mas... Mas não se preocupe. Eu trouxe madeira, pregos, cordas e coisas assim. Podemos reconstruir a ponte e continuar seguindo.
       Mal pude acreditar. Viviane estava ali. Minha amiga. Ela sorriu. Eu sorri. Abraçamo-nos. Construímos. Seguimos. É incrível no que um sentimento pode nos transformar.
       É apenas uma amizade, mas pode ser tudo.


Feito para Bárbara Caroline Reis.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A caixa


Ela abriu a caixa.
Estava vazia.
Hesitou um pouco e fechou.
Colocou a mão espalmada sobre a caixa, respirou fundo e fechou os olhos.
Não queria chorar.
Abriu a caixa novamente, retirou o fundo falso e observou.
Pegou o pequeno objeto e sorriu, feliz.
Estava diante da lembrança mais feliz de sua vida.



Agradecimentos à Malú (twitter: @maluzinha18 ) e Bárbara C. Reis.

domingo, 24 de abril de 2011

Mudança

       - Te amo. - Ele disse.
       Ela olhou-no dentro de seus olhos. Sentiu medo. Não sabia mais o que realmente sentia. Refletiu. Observou os olhos daquele garoto que dizia amá-la. Não esqueceria aquele momento.
       - Também. - Ela respondeu.
       Ele saiu dali com uma estranha sensação. Havia algo diferente nela. Não sabia o quê. Fechou os olhos. Tentou não pensar naquilo. Mal sabia ele o que estava prestes a ocorrer.

Valor

       Caminhei pela velha estrada brilhante. Mesmo à escuridão da noite de Lua cheia, as pedras de ouro brilhavam. Brilhavam de uma forma estranha. Brilhavam e não ofuscavam. Outras pedras de quais os nomes não sei dizer ao certo, de várias cores e tão brilhantes como a primeira, formavam desenhos. Imagens em movimento.
       Vi minha vida nesta estrada. Me vi brigando com minha irmã e batendo nela. Abraçando-a e rindo também. Época feliz...
       Vi toda a minha família, festas familiares, viagens, momentos que nem ao menos lembrava existir... Porém, momentos extremamente importantes.
       Vi-me com amigas, conversando, brincando, brigando, rindo, crescendo e voltando a ser criança em plena adolescência.
       Vi-me em meio ao A.N.E.I.E.A.,em uma nova fase, fase de mudanças. Loucuras substituíam momentos tediosos no colégio e nos juntavam em plena diversão.
       Caminhei sorrindo. Uma lágrima descia ao meu rosto. Enxuguei com as mãos.

       De repente, tudo estava escuro. As pedras sumiram. Senti-me sozinha. Não sabia para onde andar, mas prossegui. Segui às escuras, senti medo.Algo me empurrava sutilmente. Me fazia andar. O que poderia ser?
       Meu medo crescia, mais e mais. Minha vontade era correr de volta para o caminho de lembranças.

       Caí. Caí em meio a um abismo. Não havia como me segurar. Não havia para onde sair. Escutei passos. Passos rápidos. Muitos passos.
       Pessoas corriam e em mim o medo apenas crescia. Não apenas me dominava, já ultrapassava o domínio.

       Coloquei a mão nos olhos. Eu estivera vendada.
       Mãos me seguravam. Parei de cair. Tiraram a venda e sorriram para mim.
       -Não tenha medo. Estamos com você. Pode cair. Iremos te segurar. Pode tropeçar. Estamos aqui para evitar sua queda. Pode se ferir. Iremos te ajudar a curar seus machucados.

       Chorei. Chorei por emoção. Eram mãos de puro Amor. Mãos de pura Amizade.



Autora: Stephanie Santana
Twitter: @stephaniedms

Wattpad: @nadamaiis
Dedicado à Bruna Cristine Reis.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Desejo

Obs.: Contém violência física e verbal

       O melhor caçador não corre atrás da presa. Ele a deixa vir até si e espera pacientemente pelo melhor momento para abocanhá-la de surpresa. Porém, nada substitui o prazer de uma boa caça.
       Ora, ora... Dia de sorte. Odor de dor e prazer.
       Ele  a olhava com intensidade. Machucava seu belo semblante, enquanto ela se punha a chorar. Ele estava com uma peixeira, ameaçava cortar-lhe a garganta se não parasse de chorar. Marcava-lhe o braço com um símbolo, difícil de ver devido ao sangue.
       Ela já não gritava mais. Estava rouca, mal conseguia falar. Já não possuía forças para qualquer outra coisa além de chorar. Seus olhos azuis suplicavam para que a desamarrasse, aquelas cordas estavam apertadas. Seus braços já estavam roxos devido à surra e doíam ainda mais por estarem tão firmemente presos. Nem ao menos podia sentir sua carne sendo rasgada pela faca.
        E então, após terminar o que queria, ele saiu. Foi buscar comida para a sua prisioneira. Ainda não havia saciado seu desejo infesto. Queria mais e mais. A garota tentou se soltar, mais uma vez, em vão. Sentia nojo de si, de seu corpo. Aproveitei a deixa e fui até ela.
       Quando me viu, tentou gritar, porém sua voz não saiu. Esperneou, tentando fugir. Tola. Ela sabia que não conseguiria.
        - Calma. Eu vim te soltar. - Eu falei calmamente com um sorriso sutil.
       Seus olhos desconfiados me fitavam com extremo medo. Fui até ela e a desamarrei. Feliz, ela me abraçou e chorou. Eu a afastei e disse:
       - Agora corra.
       Revelei meus caninos de forma ameaçadora e a observei em sua fuga desesperada.
       Passei algum tempo esperando. A trilha olfativa fazia tudo ficar fácil demais. Ignorei este fator e fui à sua busca. Menina esperta. E nem um pouco inteligente ao mesmo tempo. Escondeu-se. Sabia que correndo não iria muito longe. Dancei entre as árvores em uma caçada. Podia escutar sua respiração ofegante em algum canto. Seu choro desesperado e incontrolável. Ah, que pena. Durou pouco demais. Pelo menos agora seu sangue possuía adrenalina suficiente. Subi em uma árvore, sentei em um grande galho e esperei pacientemente. Depois de alguns minutos, ela saiu de seu buraco. Bobinha.
        - Doçura, sua vida acaba aqui.
       Antes que ela pudesse ter alguma reação, pulei em sua frente, mordi seu pescoço e deliciei-me com seu maravilhoso sangue. Ela soltou um último grito. Baixo e abafado. A intensidade de seu olhar perdeu-se de vez.
        Ah, o gosto da dor... Do medo, do desespero, do desgosto... Juntos, criam uma refeição completa.
        Descartei o corpo e assumi sua forma. Voltei ao cativeiro e esperei deitada ao chão, como se houvesse desmaiado. O estuprador voltou com água e comida. Quando viu o corpo inerte ao chão, veio e tentou acordar-me. Após conseguir, ele me colocou na cadeira e esbofeteou.
       - Sua vadia! Tentou escapar, não é mesmo? Como conseguiu se soltar? - Gritou furiosamente.
       Seu rosto tomara a cor rubra e o contorno de algumas veias  Era como se a garota tivesse feito a  pior coisa de sua vida. Esbofeteou-me mais algumas vezes.
       - Como ousou fazer isso? Não tenho sido bom o bastante para você?
       Mostrava-se indignado. Acariciava meu rosto enquanto falava. Se afastou. Estava pensativo. Voltou e abraçou-me. Acariciou meu rosto. Olhou-me como se pedisse desculpas.
       - Desculpe-me, por favor, desculpe-me. Eu não queria fazer aquilo...
       Beijou-me a boca, se afastou e desatou as cordas. Fingi repulsa, me debati e tentei escapar dele. Ele voltou a me bater e então satisfez seu desejo infesto. Agora seu sangue estava perfeito. Voltei à minha forma habitual e gargalhei. Ele se afastou súbitamente. A raiva e o desespero tomaram conta dele.
       - Quem é você? O que fez com minha princesa?! O que fez com minha princesa?! - Gritou com imenso desespero.Sentimento este devido à quase apenas pela perda de seu brinquedo.
       - O mesmo que farei a você.
       Noventa e nove vítimas. Nada mal. Meu dia acaba aqui. Dez anos de sono profundo virão. Quem sabe uma hora eu ache uma vítima à minha altura? Só me resta esperar.




Agradecimentos: Lucas Barreto, Ana Carolina e principalmente à Ariel Ayres, por suas opiniões e ajuda.
Imagem por Roberto Rizzato
Conto por Stephanie Santana

Twitter: @stephaniedms
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Lágrimas

       "Chore." - Era seu único pensamento.
       Então ela o abraçou. Pensou em como havia sido burra. Perdera aquele jogo. Perdera ele.
       "Mate-se." - Não. Ainda não. Desejava fazê-lo. Mas não era tão covarde.
       "Erga-se." - Ela o soltou, e contemplou seus belos olhos.
       Com uma lágrima escapando aos seus olhos, beijou-o na boca. Beijaram-se. Ela se afastou. Ele a segurou pela cintura.
       - Fique. - Aqueles olhos a queriam. Independente do que fizera.
       Ele puxou-a à si.
       - Preciso de você. Eu a perdoo. A idéia de perdê-la é insuportável. Não pode acontecer.
       - Então eu não o perdi? Você me quer de volta, mesmo com o que fiz?
       - O que fizestes não foi de todo grave. Me afastou, de fato, mas me ajudou a perceber quanto a amo.
       Abraçou-o. Não queria chorar. Mas chorou.Queria ficar ali com ele por toda a eternidade.
       - Não chores mais, meu amor. Estou aqui. Sempre estarei.
       Uma lágrima desceu pelas bochechas dela.
       - Não o mereço. Não devias me perdoar. Não quero mais te fazer sofrer.
       - Não irá.
       Aquele beijo que se seguiu marcou. As dores que assolavam em seus peitos sumira por instantes. O que aconteceria a partir dali, não se sabe ao certo.
       Aprenderam algo? Talvez. Mas naquele momento, seus corações só se preocupavam consigo. O jeito era tentar ser feliz e aproveitar aquele momento. Apenas isso.

Autora: Stephanie Santana
Twitter: @stephaniedms
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