domingo, 24 de novembro de 2013

Descontentamento Ilusório

Com as flores em mãos, ele sobe as escadas. Seu coração palpita, sua respiração ofega. Irá revelar-se.

Bate à porta. Ela abre, ele se ajoelha. Ela sorri, sem graça, e agradece. Ele a pede. Ela nega e se desculpa.

Destroçado, ele senta sobre os calcanhares. A porta se fecha. A esperança se esvai.

Recompõe-se. Ele ainda chora, mas se vai.

Tropeça, fraqueja, cai. Levanta-se e então senta encostado na parede de algum lugar que já nem sabia qual era.

Chora, fica arrasado. Sofre. Sofre e então chora. Dorme, angustiado, ali mesmo.

Ele abre os olhos. Um belo sorriso estava à sua frente.

Tempos passaram-se. A dor não foi. Mas agora ia sendo transformado em uma chama.


Mais uma chama de esperança.



Autora: Stephanie Santana.

sábado, 12 de outubro de 2013

Labaredas

    Aquele som a invadiu. Dançante, caminhou sala adentro. Seu caminhar era leve, seus braços e pernas mexiam-se graciosamente àquele estranho som de tambores e berimbaus. Sua saia longa parecia criar vida enquanto dançava.
    Dentro de si, crescia uma chama. O suor e os olhares curiosos não a inibiam. Se envolvia com a música, sorria e dançava.
    Em alguns segundos se tornara a chama, um fulgor que espalhou-se, atingindo em cheio seus observadores. Casais, crianças, outras moças e rapazes já não eram capazes de apenas olhar, rendendo-se à dança, ao som, à alegria, ao momento.
    Não se via mais uma mulher dançante. Nada de multidão. Via-se apenas labaredas.
    Via-se intensidade. Via-se ardor.
    Ouvia-se o tambor. Ouvia-se o berimbau.

    Via-se vida.


Texto por: Stephanie Santana.
Inspirado na música "Cordas de Berimbau", de Ariel Ayres.

Minha Audácia

Me inspira,
Me renova,
Me ascende,
Me ilumina.

Alegria e paz. Tudo em teus olhos a me presentear

Me encante,
Me revigore,
Me canibalize

Realize minhas vontades. Traga-me suas paixões e seus sorrisos. Sim! Teus sorrisos. Estes mesmos que me consomem! Encha-me deles.

Me encontre,
Me espere,
Me acolha.

Impulsione-me. Traga-me toda essa energia para tornarmos do impossível apenas uma palavra.

Me espanta,
Me seduz,
Me atrapalha,
Me concentra.

Emocione-me. Contradiz-me. Alucina-me.

Me devora, não demora.

Lança em mim tua sede. Lança em mim essa vontade de lutar.

Me traz tua alegria,
Me traz tua alma,
Me traz tua saga.

Aqui estarei. Talvez não perto, mas ao seu lado.



Autora: Stephanie Santana.

Moça

Ela ri, comenta e observa.
Gaiata! 'Tá nem aí pr'esse povo. Olha mesmo, procura mesmo.
Veste seu encanto e vai atrás.
Busca pelo que quer, surpreende como quer.
Ah, essa moça!
Dá uma dor de cabeça qui só!
Mas eu te digo: é uma menininha. Uma pequena zombeteira.
Grande, madura, sensata... Mas pequena.
Ali, ao seu lado, vejo sua pequenez.
Nada de frágil, mas muito frágil.
Todo cuidado é pouco, mas é muito.
Como proteger sem proteger?

É só libertar.



Autora: Stephanie Santana

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Rabiscos Absortos

A chuva estava forte e recusava-se a parar. O dia escuro, nublado, parecia não ter fim.

Estava sentado ali, numa mesa distante dos outros clientes, em uma lanchonete. Caneta na mão, caderno aberto. Sua mesa ficava bem em frente a rua. Via os carros passarem e ficava tentando imaginar quem viria a seguir.

Pensava. Seria decepcionante, realmente. Mas por quê ele se importaria? Observara por dias aquela bela mulher. Alta, bonita, estonteante... Sim, ela seria a próxima. Ela seria perfeita.

A história dele estava apenas no início.
E ela? Bem, mal sabia ela que se tornaria eterna.


Texto por: Stephanie Santana (@stephaniedms)

Escarlate

"Parando para pensar, o que há, garotinha?
Essa expressão sem rosto, esse movimento no olhar...
É de assustar, sabia?
Mas não se preocupe, mocinha. Se preocupa não.
Logo, tudo se resolverá."

Não houve tempo para correr. Não houve tempo para gritar.

"Hum...Quem diria que um belo toque escarlate e uma lâmina não fariam efeito?
Já me atormentara demais, oras!
Gosto muito mais de rostos sem expressão."

Deliciando-se, ele se se foi. As gotas de chuva lhe traziam um bom humor, a faca em suas mãos lhe trazia a diversão.

Em pouco tempo, a água levaria seu rastro de sangue.

Não havia corpo, mas haviam rabiscos naquelas pedras.
Ele a deixara lá, como sua maior obra de arte.
Como uma marca da sua insanidade.




Texto por: Stephanie Santana (@stephaniedms)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Essência

       A moça corria. Corria por entre os arbustos. A todo momento, olhava para trás. Seus olhos percorriam por toda a sua volta. Estavam à procura de algo. Tentava ser rápida. Estava fugindo de algo.
       Abruptamente, ela parou. O homem havia lhe alcançado, encontrava-se à sua frente, um tanto próximo. Os sons do vento, das folhas batendo, dos pequenos animais, juntavam-se ao som de suas respirações ofegantes. Já não havia para onde correr.

       Seu olhar foi de encontro ao dele. Bruscamente, ele a puxou para si. A face assustada com o repentino puxão logo deu lugar a  um riso sapeca. Ele a envolveu em um abraço. Um forte abraço.


Texto por: Stephanie Santana (@stephaniedms)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Ciclo Mortal

       A katana atravessou o ar, cortando a cabeça de sua vítima desesperada. Yamada caiu sobre os próprios joelhos, cansada de sua peleja. Cravou sua espada no solo e encostou a cabeça em sua bainha. Fechou os olhos e suspirou. Sua vingança estava prestes a se completar, ainda assim, em seu coração, a dor e a raiva continuavam.
       Sua expressão permanecia impassível, mesmo diante de um fascinante pôr do sol.
       Levantou-se e caminhou até o homem morto. Cortou seu tórax e abriu sua caixa torácica. Retirou o coração e o esmagou. Uma lágrima escapou de seus olhos vazios. Soltou-o em cima do homem. Os dorsos das mãos da moça eram tatuados com diversos símbolos. Passou o sangue do homem na pele de suas mãos. Cravou a espada, no chão novamente, um tanto distante do corpo. Voltou para onde estava. Juntou suas mãos, fechou os olhos e começou a sussurrar. Enquanto Yamada proferia suas palavras, um tipo de luz branca saía  da katana e de suas mãos, que se afastaram. Ela as deixou espalmadas para cima, enquanto continuava a sussurrar.
       O cadáver foi aos poucos desaparecendo. Quando enfim desapareceu, Yamada abriu os olhos. Eles haviam tomado uma coloração nívea, enquanto sua expressão continuava impassível. Aos poucos, todo o fulgor antes visto foi se extinguindo. O pôr do sol já dera lugar à noite.

       Repentinamente, Yamada caiu, como uma boneca de pano largada ao chão.

...

       "Acorde. Vamos, estamos prontos! Seremos felizes juntos na eternidade!" - A voz, aparentemente vinda de lugar algum, parecia feliz.
       A moça levantou-se, lentamente. Seus olhos castanhos exibiam uma vivacidade incrível. Brilhavam, enquanto seu rosto exibia um sorriso terno. Já não mais uma expressão séria e fria. Correu até a espada, deixando seus longos cabelos esvoaçarem na brisa.
        Agora ficaremos juntos por toda a eternidade, eu sei! Sua voz era baixa e esperançosa. Sentou-se sobre os calcanhares, ao lado da espada, fixando o olhar na cidade, nos prédios. Tão distantes, tão diferentes daqueles campos onde estava... Olhou para espada e sorriu. Sim! Estou pronta para o nosso sonho, meu amor.
       Ela mal podia esperar para encontrar aquele que amava. Sabia que Aya, sua irmã, iria ficar sozinha, mas tinha certeza de que ela saberia lidar com isso. Era forte e batalhadora. E ela, Yamada, tinha que deixá-la. Esta, por sua vez, estava cega pela sua paixão. Via naquilo a única forma de reencontrar Katsuo e de vingar a sua morte brutal. Ela estava determinada e nem um pouco arrependida.

       Subitamente, Yamada foi jogada ao alto. Seu corpo permaneceu suspenso e inerte. Então, arqueou-se, com os braços abertos e pernas afastadas. Um clarão se formou à sua volta. Seu sorriso permanecia, mas seus olhos não mais brilhavam, estavam níveos novamente.




       – Yamada-chan! YAMADA, NÃO! – Distante, Aya, gritava aos prantos por sua irmã.
       Sangue começou a escorrer pelos olhos, boca, nariz e orelhas de Yamada. Seu corpo, bruscamente, caiu. Aya correu em sua direção gritando com imensurável aflição, cambaleante. Jogou-se ajoelhada ao lado de sua amiga. Estava morta. Puxou-a e a abraçou. Inconformada, balançava-se com o cadáver em seus braços. Suas roupas manchavam-se mais e mais de sangue.
       Seu choro calou-se. Então, notou ali, à sua frente, a katana. Tão amada e bem cuidada... Era linda. Sua expressão tornou-se impassível. Levantou-se, pegou a espada, onde o sangue não mais existia. Às suas costas, o corpo de Yamada desapareceu e a espada começou a brilhar. Marcas e símbolos surgiram nas mãos de Aya.


       "Ficaremos juntas por toda a eternidade, minha  querida irmã. Nós prometemos uma à outra! Deixe-me guiá-la."






Agradecimentos: Lucas Matos (Java), pelas dicas e por aceitar me propor uma imagem para que eu tivesse ideia para o texto.
Texto por: Stephanie Santana (@stephaniedms)
Ilustração e nomes dos personagens: Lucas Matos (Java) 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Voo

     Olhei para o céu e me deparei com uma única nuvem. Voltei meu olhar ao mar. Estava perto do pôr do sol, com céu ainda azul.
     Eu, aqui, sentada na grama à beira da praia, estou a observar um pequeno pássaro. Ele voa, voa, voa. Sobe, desce rapidamente, banha-se no mar e sobe, começando sua bela dança aérea. Minha mente o acompanha, sublime.
     Deito, fecho os olhos e então, quem diria? O danado do pássaro continua ali. Sentindo a grama fofa, a brisa suave, o cheiro do mar, permaneço a observar aquela perniciosa cena, ainda de olhos fechados. Neste momento, sua dança era dedicada a mim. Apenas à mim.
     Egocêntrico, não? Talvez. Mas o quanto isso importa agora? Aqui estou eu contemplando um magnífico voo. Um voo só meu, especialmente para mim.  Um sorriso abre em meus lábios. Abro os olhos. O pássaro já não estava lá. Em seu lugar, o pôr do sol.

Texto por: Stephanie Santana (@stephaniedms)