quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Vórtice

Sentiu que algo estava errado. O corpo inerte em seus braços não parecia como outros tantos que tiveram a infelicidade de serem suas vítimas...


Mas como? O que podia estar errado?
Não tinha ideia de como aquilo pudera ter acontecido. Era uma moça bonita, a mais bela que podia ter achado. Seu pescoço parecia pedir por uma mordida, mal podia ele se controlar.

Aaah, aquele sangue. Levemente ácido, como poucos humanos comseguiam ter... Era também um belo líquido viscoso de se ver escorrer enquanto ela desfalecia em meus braços.

Aaaargh! Ainda assim, o que poderia estar errado. Seus instintos não erravam. Alguma coisa anormal estava acontecendo ali...

Mas o quê?

Ela abriu os olhos. Mas como?

Ele a soltou assustado, deixando o corpo tombar ao chão.

Olhou novamente. Os olhos dela estavam fechados. Caiu sobre o corpo, chorando um pouco. Alisou o rosto e pediu desculpas, sussurando. Seu brinquedinho caíra por cupa sua. Ele mal podia lidar com isso. Pegou-a nos braços novamente, tinha que levá-la aonde guardava os corpos de suas vítimas.

Ele era metódico e de humor mutável e até mesmo paradoxal. Como um caçador frio podia se assustar tão fácil? Afinal, era a sua presa. Estava morta, não possuía sequer uma gota de sangue restante.

Não importava quão estranho era aquele corpo ou o quanto seus instintos o queriam fazer repelí-lo. Ele o iria levar em sua cova, em seu canto, em sua casa. Lá, ela iria jazir em paz, junto às suas outras vítimas mais preciosas.

"Acorda, infeliz!" - Escutou uma voz feminina distante.

Olhou à sua volta procurando à sua volta pela dona da voz, com o cenho franzido. Colocou o corpo de seu brinquedo no chão. Olhou para todos os lados. Não via ninguém.

Ele estava em uma rua completamente deserta. Era tarde da noite e as luzes de todas as casas estavam apagadas. Apenas as luzes dos postes e do colar da moça faziam vigília.

Ele notou o brilho do colar e abaixou-se para pegá-lo. Com o pingente em suas mãos, observou os detalhes. Era como se o colar o puxasse para si.

"ACORDA, MALDITO! QUERO VÊ-LO SABOREAR A PRÓPRIA MORTE!"


Ele abriu os olhos, assustado, sem saber onde estava ou o que estava acontecendo. Moveu-se bruscamente, percebendo que estava com seu corpo atado à cama. Desesperou-se ainda mais ao perceber que seu amado brinquedo nao estava em seus braços ou inerte no chão.

Ela estava ali, diante dele, com um sorriso sádico, em júbilo, com uma estaca em suas mãos. Ela cravou-a sobre o peito dele, que urrou de dor.

- Sinta só o cheiro deste pescoço, desgraçado! Dele, nunca sugarás! HÁ HÁ HÁ HÁ! - Soltou uma gargalhada, sujando-se com o sangue dos pedacinhos em quais o deixou. Logo, aqueles pedaços se tornaram cinzas. Agora era hora de procurar pela sua próxima vítima asquerosa.



Autora: Stephanie Santana

sábado, 10 de outubro de 2015

Pedaços ao Vento


O vento reverbera no corpo da moça. Ela podia sentir como se ele fosse levando pedaços e pedaços de seu corpo. A calmaria daquela praia inóspita (ainda que cheia de pessoas, sorrisos e brincadeiras) a assustava.

"Teria que ser sempre assim?" - Ela pensou.

Olhou atentamente o horizonte. podia vê-lo, à distância, lhe dando as costas e sumindo...

Com ele, via partir uma parte de si. Um pedaço de sua base. Ia com ele, um rapaz que apenas andava, se distânciava. Em momento algum ele sequer olhou para trás.

"Será que está sorrindo? Será que está chorando? Será..."

Perguntas e perguntas ecoavam pela mente dela. Não somente com relação àquele ser, mas também sobre si mesma. Estava de coração partido. Estava sozinha, novamente. Não por não ter a ninguém, mas simplesmente pela sensação de abandono que lhe permeava. Sentia que mais uma vez ela perdia um caminho, que mais uma vez tinha entregue um pedacinho seu a alguém que apenas foi embora.

Saiu de seu tranze e observou à sua volta. Jovens surfistas, famílias, pessoas se bronzeando, grupos de amigos batendo papo, areia, água, sol, vento, grama... Aaah, a grama. Cá ela está, gostosa de se tocar. Sofia descruza as pernas e deita-se. Sente bem o gramado em sua pele. Olhando acima, as folhas do coqueiro lhe tranquilizavam. Ainda assim, lágrimas não deixaram de escorrer por seu rosto - não podia contê-las.

A dor de um coração partido é, de fato, um dos maiores desprazeres que se pode sentir. Ela respirou bem fundo a fim de se afogar um pouco naquele sentimento. Sentiu-se só, como se sua presença fosse uma ironia naquele espaço. Sua mente estava uma bagunça, não podia compreender o sentido daquela situação, por mais que soubesse exatamente o porquê de não ficarem juntos. Ela já fez o mesmo: Afastar um amor a fim de cuidar da casa - cuidar de si.

Voltou a sentar-se. Abraçou as pernas e observou o mar. Ondas indo e vindo. Fluidez como a energia que sentia percorrer seu corpo. Era quase como se pudesse perceber o movimento dos órgãos e fluidos de seu corpo.

Voltou a devanear. Ele havia parado de caminhar. Olhou para trás. Apertou os lábios em uma expressão triste. Era como se ele dissesse: "Nunca dará certo.". Aquilo a rasgou por completo.

Dizem que quando há amor, dá certo. Dizem que se deixarmos livres aqueles que nos amam, sempre voltam. Ainda que tentasse, ela não podia acreditar por completo nessas premissas. O viu partir e sumir ao horizonte. A desesperança transbordou em choro.

Um braço apoiou-se em seus ombros e a puxou para um abraço. Por um instante, ela assustou-se e tentou desvencilhar-se daquele corpo estranho, que não havia percebido chegar. Olhou mais atentamente àquela ser de braços abertos: um amigo. Desculpou-se e pôs os braços dele à sua volta. Podia sentir assim, que sua casa podia se reestruturar novamente.




Autora: Stephanie Santana